Envolto em mediatismo, The Post, um dos filmes mais aguardados do ano chegou ao cinema carregado de elevadas expetativas. Dirigido por Steven Spielberg, com as interpretações nos papéis principais de Meryl Streep e Tom Hanks levar-nos-ia a crer que estaríamos presentes numa das maiores obras-primas do ano. As grandes investigações jornalísticas já trouxeram ao cinema filmes de enorme qualidade, alguns deles vencedores do óscar de melhor filme, como é o êxito recente do Caso Spotlight.

Em plena década de 70 o jornal New York Times tem acesso a informações sigilosas do Pentágono que denunciam as mentiras proferidas pelo Estado Norte-americano relativamente à sua atuação na Guerra do Vietname. Sem hesitar o jornal decide publicar as informações e é rapidamente processado pela Governação de Richard Nixon proibindo-os de divulgar outras matérias relacionadas. Assim, os novos documentos sigilosos são entregues ao The Post, um pequeno jornal familiar, chefiado por Kat Graham (Meryl Streep) que está prestes a lançar-se na bolsa de valores. O editor-chefe, Ben Brandlee (Tom Hanks) ávido por alguma notícia mediática trata de convencer Kat relativamente à importância do artigo para o crescimento da popularidade do jornal e consequentemente contribuir para a defesa da liberdade de imprensa.

O cartaz é de luxo, o realizador dos melhores de sempre e o tema da eterna rivalidade entre a imprensa e o poder político são sempre do meu agrado. Contudo, não que o filme não tenha qualidade, The Post foi uma das minhas maiores desilusões do ano muito por culpa das elevadas expetativas. O ritmo lento, a superficialidade com que a temática é tratada idolatrizando as personagens principais sem as deixar envolver diretamente em toda a sujidade política da época. Os diálogos entre Ben Brandlee e Kat Graham não são explosivos e não conseguem demonstrar a proporção da difícil decisão de publicação do artigo que em caso de aplicação de sanções do Estado poderia fazer recuar os investidores relativamente à sua entrada em bolsa. Meryl Streep esteve mais convincente que Tom Hanks, mas ainda assim furos abaixo do esperado. O trabalho de fotografia e imagem e o modo visceral com que é tratada a problemática da afronta à liberdade de imprensa são os pontos fortes da nova obra spielberginiana.

É incontornável o papel do jornalismo na sociedade hodierna. A divulgação de notícias e informações permitem que todos nós estejamos conscientes do que ocorre à nossa volta. Neste filme é o direito à liberdade de expressão jornalística que é colocado em causa devido à não conveniência da divulgação de matérias sigilosas que elucidam os cidadãos norte americanos relativamente à prestação militar no Vietname e as suas verdadeiras motivações. Atualmente com os EUA em plena governação Trump, é plausível que muitas matérias de carácter depreciativo estatal possam surgir e será curioso de observar qual será a atitude do sempre intransigente presidente norte-americano relativamente ao jornalismo.

A discussão atual relativamente ao papel da mulher na sociedade é um tema cada vez mais em voga e The Post não o menospreza. A personagem Kat Graham, uma mulher a chefiar um importante jornal em plena década de 70, é obviamente considerado como um peixe fora de água. Preocupada com a família, organizadora de festas e rodeada de todo o género de conselhos masculinos durante toda a trama é bem demonstrativo do papel da mulher naquela época. É o exemplo de uma das primeiras mulheres, que embora ainda subjugada à sua condição cliché feminina, já dispunha de um elevado poder de decisão.

Problemas atuais e outros quase intemporais são debatidos simultaneamente que nos é dada a conhecer a intrigante investigação jornalística ocorrida nos EUA na década de 70. O conteúdo era apetecível, desafiador e reúne todas as condições para uma epopeia cinematográfica, mas a falta de ritmo e as incoerências ao longo da trama tornaram The Post apenas mais um filme da longa cinemateca hollywoodiana. Não se pode negar a existência de qualidade, que acaba por oferecer aos espetadores uma agradável experiência cinematográfica. Contudo, as elevadas expetativas não beneficiaram a avaliação deste filme, em que o “bom” não é suficiente quando se trata de uma obra de Steven Spielberg interpretada por Meryl Streep e Tom Hanks. Um filme que claramente era um assalto aos óscares acabou por não receber uma única estatueta. Ficou-nos um gosto a desilusão.  

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