Cambridge Analytica e Facebook

Ingénuo e possivelmente bem-intencionado assim surgiu o Facebook, uma rede social com a importante missão de conectar e aproximar as pessoas. Rapidamente passou de simples rede social a um dos maiores êxitos da economia mundial, tornando-se um dos maiores monopólios da atualidade, com cerca de 2 mil milhões de utilizadores em todo o mundo. Christopher Wylie, ex-funcionário da Cambridge Analytica, deu a conhecer, após a sua saída da empresa, que a mesma utilizava indevidamente informações pessoais de 50 milhões de utilizadores do Facebook com o intuito influenciar a opinião relativamente à eleição de Trump nos EUA e ao desfecho favorável do Brexit em Inglaterra. O escândalo depressa se propagou revelando as fragilidades, já conhecidas, da insegurança das nossas informações pessoais no mundo digital. Para espanto de muitos, e de outros nem tanto, a verdade é que várias personalidades preferiram eliminar os seus perfis nas redes sociais como forma de se precaverem destes metediços tecnológicos.

Se me pareceu estranho este escândalo? Definitivamente não, passo a explicar. Como sabemos através do Facebook é possível realizar campanhas publicitárias direcionadas ao target pretendido, podendo escolher faixas etárias, região e até os gostos dos utilizadores. Sabemos também que ao descarregar o nosso perfil temos acesso à nossa pegada digital, mostrando-nos uma assustadora quantidade de informações onde constam todas as interações realizadas na rede ao longo dos anos, desde meros likes às chamadas efetuadas. Se estes dados eram utilizados para fins comerciais porque não usá-los também para fins políticos? Neste caso em concreto, os utilizadores que estavam preocupados com a crise de refugiados nos EUA ou com a imigração mexicana eram bombardeados com artigos e discursos pró-Trump, por sua vez os utilizadores ingleses receosos das medidas europeias, leitores das notícias difamatórias que davam conta que a permanência na União Europeia é prejudicial para com o seu sistema de saúde, tinham grande probabilidade de encontrar no seu feed várias promoções da campanha favorável ao Brexit.

O marketing em torno das redes sociais tem tomado conta do raciocínio humano. As redes sociais são uma autoestrada recheada de informação formatada de acordo com as preferências, gostos e crenças dos utilizadores. Passivamente no nosso roll-up social, somos facilmente iludidos com os produtos pré-formatados que nos vão aparecendo no ecrã. O Facebook tornou-se a plataforma dourada da propagação de informação, que tem vindo a prejudicar o raciocínio individual e estrangulando aos poucos a imprensa tradicional, que não consegue competir com a gratuidade das informações presentes nas redes sociais. Sem descurar o preocupante uso da nossa informação pessoal, não é legítimo afiançar que os resultados eleitorais se devem às informações que nos são bombardeadas através das redes sociais. Temos, ou deveríamos ter, autonomia mais do que suficiente para não crer em todas e quaisquer opiniões e indicações que nos chegam através do computador ou smartphone, e tomar as nossas próprias decisões de acordo com o nosso bom senso.

Cambridge Analytica e Facebook

É inquietante que os nossos perfis que contêm informações confidenciais sejam vendidos a empresas como a Cambridge Anatytica para os usarem a seu belo prazer, com a única finalidade de nos manipular o raciocínio da forma mais rentável possível. Os dados incomensuráveis provenientes das redes sociais e dos cookies que aceitamos displicentemente irão permitir que fiquem a conhecer os nossos interesses e pesquisas. Essas informações, a tal big data, é o bem mais precioso da atualidade. As informações pessoais manipuladas e instrumentalizadas colocam todos nós na mira de publicidades maliciosas e atrativas que temos de analisar convenientemente. Os monopólios, Facebook e Google, detêm 80% do total das receitas mundiais da publicidade online, controlando a seu belo prazer poderosas informações pessoais que valem largos milhões de euros.

O poder do mundo digital, nomeadamente das redes sociais é inegável. A rarefação de informação instantânea que, quando bem instrumentalizada e colocada no sítio certo, bloqueia-nos o raciocínio e faz-nos acreditar em histórias da carochinha. Habituados ao clique rápido, à leitura das letras gordas e ao pensamento intuitivamente acelerado, faz da geração facebokiana um alvo fácil das agências de comunicação. Contudo não considero as redes sociais o bicho papão que alguns querem fazer vender, desde que nós utilizadores apenas coloquemos informações que nos sentimos plenamente à vontade em divulgar, sem nunca colocar em perigo a nossa esfera mais íntima. É necessário entender que o negócio do Facebook não é unicamente conectar as pessoas e deixá-las felizes partilhando as suas fotos e conversar livremente com os seus amigos, mas sim todo um negócio publicitário ancorado nas informações que vamos deixando na nossa pegada digital. Cabe a nós utilizadores, humanos com capacidade de raciocínio, saber analisar as informações que nos são apresentadas no nosso touchscreen com a mesma inteligência e desconfiança que anteriormente analisávamos um anúncio publicitário na TV ou ouvíamos um discurso político manhoso. Urge, contudo, uma regulamentação a nível mundial que detenha estes monopólios de utilizarem as informações pessoais a seu belo prazer.

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