La Casa de Papel- O assalto do momento

Tempo é dinheiro, nunca esta frase fez tanto sentido como em La Casa de Papel. Esta série assaltou o meu tempo, sequestrou a minha mente e autoinfligiu-me a obrigação de consumir episódio atrás de episódio desta contagiante série espanhola. Embora iniciada em 2017, La Casa de Papel atingiu o hype quando em 2018 a Netflix decidiu apostar na sua divulgação. Uma aposta mais que certa que rapidamente se tornou um fenómeno mundial, não passando despercebida até aos mais distraídos. Com o seu ritmo de cortar a respiração desde o primeiro episódio, consegue a proeza de terminar cada episódio com um momento de suspense, influenciando sempre a visualização do próximo episódio.

Com uma premissa bem simples, La Casa de Papel conta a história de um grupo de 8 assaltantes que pretendem roubar a Casa da Moeda Espanhola. Com um plano genialmente elaborado pelo “Professor” e com 5 meses de treino preparou toda a equipa para aquele que poderia vir a ser o maior assalto da história. Com o objetivo de limitar os laços de afetividade, aos 8 criminosos foram atribuídos nomes de cidades (Berlín, Nairobi, Río, Tokio, Helsinki, Oslo, Denver, Moscú). Para solucionar este assalto, a inspetora Raquel Murillo ficou encarregue de liderar a investigação, contudo o que esta não esperava era apaixonar-se pelo cérebro desta operação. Um plano utópico, à imagem de Robin Hood, com a digna motivação de roubar dinheiro unicamente a quem o tem – E quem tem mais do que a indústria do dinheiro? Mais do que um mero assalto, o cerne da operação é a produção da maior quantidade possível de dinheiro.

Num jogo do gato e do rato automaticamente assumimos preferência pelo lado mais frágil, em La Casa de Papel não é diferente, onde o espetador simpatiza e torce para que os assaltantes consigam escapar da polícia que os rodeia durante toda a trama. As personagens, tal como na vida real, oscilam entre momentos de enorme bondade e de tremenda maldade, explorando assim a complexidade da personalidade humana, que como sabemos é capaz do melhor e do pior. Inteligentemente o produtor consegue criar no público o sentimento de empatia para com os assaltantes. Embora o carácter violento digno de criminosos esteja sempre presente, a utilização de úteis flashbacks vai nos dando a conhecer a história de cada personagem, desculpabilizando as contestáveis ações que tomaram ao longo da sua vida. É no desenvolvimento da personalidade de cada personagem que o espetador, sem querer, acaba por tomar partido pelos assaltantes e torce até ao fim pelo seu sucesso. Essa é a grande vitória desta série.

La Casa de Papel: musica Bella ciao

Uma série fantástica que entusiasma, mas não deixa de pecar por erros crassos de roteiro que, para tornar La Casa de Papel numa obra-prima, não podiam acontecer. Vários momentos de tensão despertam o espetador e fazem-no ansiar pelo próximo episódio, contudo o desenlace dos momentos de maior dramatismo raramente dão em algo de significativo. Com o passar dos episódios o sentimento de incerteza vai diminuindo porque já prevemos que a ação volte às rédeas normais. Alguns exageros e escolhas fáceis, como a morte de Oslo, que pouco impacto tinha na trama, as próprias peripécias do Professor vão se tornando repetitivas e previsíveis e a situação mais inconcebível será provavelmente o retorno ao prédio de Tokio dirigindo uma moto enquanto era alvo de um tiroteio. Outro aspeto menos positivo é o final algo apressado, uma vez que ao longo dos vários episódios existe um elevado esforço de caracterização de cada personagem, relevando as suas motivações e sonhos, e nos minutos finais apenas ficamos a saber que o romance entre Raquel e o Professor tem um final feliz.

De inovadora La Casa de Papel tem muito pouco, existem evidentes erros de direção e roteiro, mas não conseguimos deixar de adorar esta série. Com uma linguagem simples, um ritmo rápido e uma utilização inteligente de flashbacks esclarecedores, esta série tem como grande feito conseguir agarrar a atenção dos espetadores em todos os episódios. Álex Pina numa direção segura, sem grandes malabarismos técnicos, emprega uma grande dose sentimental em todas as personagens, que nos faz apaixonar por cada uma delas. As interpretações são coesas, com particular destaque para Berlín, um maníaco sociopata que embora repleto de defeitos, o espetador não consegue afirmar com certeza que odeia a sua personagem. O resultado foi fantástico, bem visível em todo o alarido em torno da série, que promete vir a ser uma das melhores do ano. Resta-nos apenas dizer bella, ciao.

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